quarta-feira, 26 de abril de 2017

ESPORTE NA ESCOLA: mas é só isso, professor?

A educação física é componente curricular obrigatório da educação básica (BRASIL, 2003) que tem como especificidade viabilizar aos alunos o acesso ao conhecimento da cultura corporal. A disciplina educação física é obrigatória assim como as demais disciplinas escolares (matemática, língua portuguesa, artes, história, geografia etc.) e, em comparação com as demais disciplinas, a matéria que a maioria dos alunos mais gostam, por representa um espaço menos rígido que o da sala de aula, por que ainda existem alunos que não participam das aulas? Por que isso ocorre na maioria das vezes com a educação física? Quais são os motivos que leva a Educação Física a perder o espaço no Ensino Médio?
As perguntas são pertinentes a partir da observação da rotina de sala de aula e na sobre carga de práticas centrados no esporte. O esporte é um instrumento e prática mais reforçada como conteúdo do movimento corporal na escola. A Educação Física apresenta uma diversidade de conhecimento, mas mesmo assim, nos restringimos apenas 04 modalidades nas aulas de Educação Física, tais como, futsal, basquetebol, voleibol e handebol, o Quarteto Fantástico. As outras modalidades como o atletismo e a ginástica artística não são difundidas entre os alunos desta faixa etária. E se olharmos mais a fundo, conteúdo com dança, capoeira, judô, atividades expressivas, ginástica, folclore e outras, são relegadas a projetos e momentos excluídos do currículo e das aulas de Educação Física.
A identificação do aluno com a aula de Educação Física começa desde as primeiras aulas da Educação Infantil. É o único lugar onde o corpo cria voz através do movimento, mas as oportunidades para conhecimento de outras práticas ainda apresenta limitações, e as opções dadas ao individuo são mínimas. Pesquisas em escolas públicas e particulares, realizada pela autora Betti (1992), descreve bem esta limitação de oportunidades, restrito ao voleibol, basquetebol e futebol. E os alunos que não se identificam com nenhuma destas praticas esportivas responderam que gostariam de aprender outros conteúdos.
A Educação Física tem no movimento corporal, o meio e o fim para atingir o objetivo educacional, utilizando das diversas atividades, como o jogo, o esporte, a dança ou a ginástica. Mas a escola assumiu o ensino exclusivo do esporte, como estratégia para alcançar esses objetivos. Uma distorção dos conteúdos curriculares e do objetivo da disciplina na escola. Essa hegemonia do esporte passou a existir depois da Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra. Outro marco foi a ascensão da classe média ao poder politico e a influência social que o esporte passou a proporcionar as camadas inferiores da sociedade. Sua expansão deu-se, a partir do final do século XIX. (Betti, 1991)
O esporte, então, é fruto da sociedade industrial moderna e reproduz o proposto pela sociedade, no que toca a suas ideologias. O esporte é cópia do relacionamento capital dessa sociedade. Com isso a esportivização foi o próximo passo para a construção do esporte na escola, com seu auge na década de 70, onde o binômio mais utilizado foi Educação Física/Esportes, chegando o governo a subordinar a Educação Física escolar ao esporte. Os códigos do esporte, tais como o rendimento atlético desportivo, a competição, comparação de rendimentos e recordes, regulamentação rígida, sucesso esportivo e sinônimo de vitória são lemas da Educação Física Escolar, consequentemente da sociedade capitalista. O professor passa a professor-treinador e o aluno a aluno-atleta, uma vez que falta uma definição do papel do professor de Educação Física. Enfim, a finalidade da esportivização no contexto escolar não é mais a educação, é o rendimento.
Com esse modelo de Educação Física Esportiva, aumentar ou diminuir o número de horas dedicadas ao esporte, não o tornarão necessariamente educativo. É necessário pensar no esporte como um fenômeno social massivo devido à mídia, onde se tornou um negócio lucrativo (o mesmo acontece com o cinema). Se por um lado o esporte exerce um papel social, por outro lado, é constituído pela atividade física pura. Não é possível adotar a "política do avestruz" ocultando qualquer um destes papéis. E um dos papéis educacional é a aprender a discutir o que acontece no esporte, por exemplo, na questão política dos boicotes olímpicos, os ídolos, e não simplesmente negá-los, a falta de direitos trabalhistas para atleta, a exclusão de gêneros, marginalização da diversidade corporal.
Em meio a este cenário esportivo, aumenta-se a preocupação com o envolvimento do aluno nas aulas de Educação Física e o com seu aprendizado efetivo e concreto. Cruz de Oliveira (2010) identificou três modelos de alunos, de acordo com a participação nas aulas: “aqueles que não participavam das práticas corporais, os que participavam de tudo e aqueles que se encontravam na fronteira entre esses dois grupos” (CRUZ DE OLIVEIRA, 2010, p. 141). Segundo o autor, o sistema escolar contribui para que a educação física seja vista como um espaço menos rígido quando comparada às demais disciplinas, pois, há uma centralidade da atividade intelectual nas atividades escolares, pouca importância às práticas corporais na escola e o momento de relaxamento intelectual seguido de prazer e descontração.
O sistema escolar é composto por sujeitos e saberes, uma relação entre professor-aluno-conhecimento. Podemos apontar um dos motivos para a hegemonia esportiva e a visão da Educação Física desleixada a resistência dos professores face a novas propostas de ensino. Geralmente o ano é dividido em "bimestres letivos". No 1° bimestre é oferecido o futebol, no 2º o handebol, no 3º o basquetebol e no 4º bimestre o voleibol. Se esta programação é cumprida, pelo menos consegue-se mostrar aos alunos quatro modalidades. O problema é quando ela é repetida para todos os alunos, do mesmo jeito, independentemente da faixa etária e quando ela se repete ano após ano, sem alterações. Pior ainda é quando ela fica apenas no papel, e os alunos vêem apenas uma modalidade durante todo o ano, de forma livre, sem acréscimo de conhecimento e desvalorizada enquanto cultura escolar.
Neste ponto pergunto: onde ficam os conteúdos como a dança de salão, a capoeira, a ginástica aeróbica, a musculação? Isto sem contar a ginástica artística, o folclore e o atletismo que também não são utilizados. Por que isto acontece? Muitos podem ser os motivos. Talvez o receio de mudar ocorra pela insegurança dos professores em relação a conteúdos que não dominam, e desta forma trabalham com o que possuem mais afinidade. Ou por acreditarem que a escola não possui nem espaço, nem material apropriado, ou ainda por acharem que os alunos não gostariam de aprender outros conteúdos.
A questão do espaço em algumas escolas é realmente um assunto delicado. O professor sempre imagina uma aula na quadra, com bolas oficiais, etc. Quando isto não existe na escola, ou quando a quadra não pode ser utilizada, a aula termina. Mesmo que o conteúdo a ser desenvolvido seja a ginástica, por exemplo, ou a dança, a aula é, via de regra, realizada na quadra. A escola acaba preocupando-se com a organização do espaço físico voltado aos padrões esportivos vigentes e adapta este espaço apenas com fins de competições esportivas. Assim, em escolas temos quadras, mas não salões de dança, por exemplo; os próprios professores acabam não sabendo fazer outra coisa a não ser utilizar as instalações esportivas.
Em relação ao material observa-se o mesmo tipo de problema. Utilizam-se materiais caros, com pouca durabilidade, como no caso de bolas, onde nem o Estado, Prefeitura ou escola particular sente-se responsabilizado pela compra. Entretanto, também neste item não observamos uma renovação. Poucos são os professores que procuram utilizar outros materiais, diferentes dos convencionais nas aulas. Isto define, inclusive, o tipo de conteúdo a ser desenvolvido. Se uma escola possui apenas bolas de basquetebol, o conteúdo girará somente em tomo deste esporte. Embora isto inviabilize alguns conteúdos esportivos, não impossibilita outros.
Neste modelo tradicional e esportiva das aulas de Educação Física, a base de valores parte da competição e do individualismo, que acaba dando lugar a atitudes agressivas, em função de comportamentos competitivos e frustrantes, pois deixa de lado a satisfação pela participação, afastando aqueles que se sentem menosprezados por não conseguirem vencer. É comum conhecermos alguém que atribui a desvalorização às práticas corporais devido às experiências negativas tidas na escola, relacionadas com o esporte, quando teve algum tipo de frustração decorrente de atitudes preconceituosas ou tristeza por sentimento de inferioridade. Esses alunos se sentem menosprezados quando sofrem preconceito dos colegas, por não terem determinada habilidade para o esporte.
Desta forma, os alunos se tornam passivos no processo de ensino aprendizagem e o professor não legitima sua prática pedagógica, reforçando o sistema social. Imaginem um aluno que sempre jogou voleibol separado por gênero durante os anos de sua escolaridade, e da forma que esse esporte é transmitido pela televisão, com as mesmas regras, sem saber por que jogam de determinada forma, se é possível construir suas próprias regras, se existem outras formas de jogar. Qual a contribuição das aulas de educação física para sua formação?
Não é tarefa simples solicitar a participação dos alunos nas aulas de educação física, quando eles próprios argumentam que não aprendem nada de novo, ou quase nada com esta disciplina. Infelizmente há muitos professores que apresentam a característica de dar a bola aos alunos e deixá-los assumir as responsabilidades da aula. Há um faz-de-conta quando o professor não busca a efetiva participação do educando, pois não se esforça em ensinar conteúdos relevantes e o estudante, por sua vez, não se importa com esse descaso, mas tem consciência que isso ocorre.
O artigo tentou mostrar outras discussões que também são negadas, no sentido de, questionar a pouca utilização de outras modalidades esportivas e outros conteúdos da Educação Física para que a mesma não continue sendo vista como o binômio Educação Física/Esporte e muito menos Educação Física/ "alguns esportes". Vários motivos podem servir como explicação para o fato da não utilização de outros conteúdos. Outros fatores podem estar intervindo na escolha dos conteúdos pelos professores de Educação Física e o afastamento do aluno na prática dessas aulas. Cabe agora a estes professores e alunos tomar a decisão de questioná-las e mudar.

Referência bibliográfica:
BETTI, Irene Conceição Rangel. Esporte na escola: mas é só isso, professor? Revista Motriz: volume 1, numero 1, pg. 25 a 31, junho de 1999.

TENÓRIO, Jederson Garbin; SILVA, Cinthia Lopes da. Educação Física Escolar e a não participação dos alunos nas aulas. Ciência em Movimento, Volume 2, número 31, página 71 a 80, 2013.